CORPO-TERRITÓRIO y ESPAÇO
TRAÇO-TERRITÓRIO
CORPO ATRAVESSADO
contra-cartografias encarnadas
Essa é uma brincadeira de cartografar.
Tocade pelos atravessamentos que 1) a prática Drag Cuir tem sob meu corpo, 2) os trabalhos de Elías Adasme são construídos, 3) meu mapa afetivo surtiu sobre mim e 4) de memórias do Livro de Cabeceira, de Peter Greenaway; imaginei uma oficina em que riscássemos no corpo os afetos que cada parte desse território-corpo acumula. Localizar traumas e prazeres, delírios e caminhos, sonhos e sensações.
Corporificar afetos demanda que o corpo vibre e capte no ar mesmo as intuições de quais palavras escrever, como traçar e onde. No território do corpo, age constantemente o fator memória - seja esta consciente ou inconsciente, de nossa espécie ou de espécies prévias da evolução (COCCIA, 2020).
Esse experimento foi realizado uma vez, participando eu y III. Dei as orientações, porém percebi que a dinâmica foi um pouco enfraquecida pela ausência de alguém "fornecendo os comandos". A brincadeira será aprimorada para uma oficina com o Coletivo TOCA (Teatro Ocupação Cultura Arte) no Canteiro Aberto da Vila Itororó.
Há um espaço de intimidade a ser construído na dinâmica, que passa pelo olhar e pela vulnerabilidade. Por um lado, expor-se nos atravessamentos (muitas vezes traumáticos) que percorrem nosso corpo. Por outro lado, a nudez. O exercício é feito em duplas: traçarei os afetos que atravessam meu corpo nesse outro corpo que estou defronte. O corpo que me deparo (de outra pessoa) é o espelho do meu corpo, à medida que se sinto censura na minha garganta, é na garganta desse outre que traçarei a censura. A nudez é parte importante e ritualística do exercício, pois a camada simbólica que separa o eu (a roupa) é retirada para exposição e para dispor a própria corpa a tornar-se corpo de outre.
A inspiração na montação enquanto ritual está muito presente e dá o tom do próprio exercício. Os trabalhos de Castiel Vitorino e Uýra Sodoma, por exemplo, me influenciam muito na relação ritual-montação-atravessamento. Por outro lado, também foi importante enquanto inspiração os lugares da nudez e do olhar nas performances de Marina Abramovic.
Sem dúvida, há nesse experimento também um envolvimento com a própria arte terapia, área da qual conheço apenas o trabalho espetacular de Nise da Silveira. Algo a mais se compreende ao traçar no corpo o afeto que ali perpassa. Torna-se legível o rastro. Não apenas legível pra si mesmo, mas também exposto. Uma cicatriz aberta.
No ritual da brincadeira mesmo, fica pendendo a dúvida da palavra enquanto profecia. Para retomar o mesmo exemplo: ao escrever na garganta de outre "censura", estarei enfeitiçando esse espaço? (Lembrem-se, aqui é campo de magia também). Paira sobre quem participa essa dúvida, que também reflete algo interno: ao declarar que esse afeto me atravessa, me sentencio a ele?
Atravessar é um movimento, então talvez a própria lógica de sentença/culpa seja apenas mais uma marrafunda colonial. Ao brincar, desatamos esse nó. Praticando a brincadeira, também sentimos na camada sensível da apele um pouco desse outro que habita defronte, desse outro corpo-território, e tão simples quanto uma brincadeira acaba e outra começa, há profecias que podem ser proferidas e outras que serão enxaguadas nas águas do banho.
É importante tomar um banho no final desse experimento-ritual-brincadeira.
O experimento ainda está em construção, mas sua primeira versão foi feita a partir de orientações em comum para a dupla. Segue abaixo a descrição.
- Exercício preliminar: retrato da sua dupla de traço livre, sem olhar o papel e nem tirar a caneta do papel. 1 minuto.
O experimento Traço-Território Corpo Atravessado consiste em traçar as poéticas dos afetos que atravessam o corpo. Os afetos que sinto no meu corpo, vou escrever no corpo da outra pessoa que está comigo as sensações, lembranças, emoções, memórias, etc. (afetos em geral) que uma parte do corpo me remete.
- Escreva num papel palavras que atravessam seu corpo e que vem à cabeça agora.
- Vá para outro cômodo, em silêncio, tire a roupa e deixe lá.
- Voltem para o cômodo nus, em silêncio. As portas estão abertas. O papel com as palavras é colocado ao lado.
- Fique pelo menos um minuto observando esse outro corpo e esse lugar de encontro, sem trocar palavras.
- Quando sentir algum afeto te atravessando, pegue o píncel e trace no corpo da pessoa à sua frente o nome que você quer dar a esse afeto.
- Foque em uma parte do corpo e busque memórias-afeto relacionadas a esse lugar.
- Caso não sinta nenhum afeto que queira escrever, olhe para os papéis ao lado e busque onde no seu corpo estão localizados.
Assim segue por cerca de uma hora.
Nessa primeira brincadeira, não tivemos muita hora de acabar, ficamos bem cansades depois de cerca de uma hora e meia de atividade. Eu imaginei que as palavras teriam mais lugar que desenhos, mas o primeiro afeto que me atravessou (coragem) veio com um desenho. Apareceram diversas palavras, inclusive algumas que só fazem sentido para aquela pessoa especificamente. Na verdade, cada palavra inscrita vem com uma história ou sentimento que pode ser compartilhado.
Ao finalizarmos, fizemos o registro com fotos e apreciamos as contra-cartografias traçadas nos corpos ume de outre. Então fomos tomar banho. O banho também teve um caráter ritualistíco de apagar essas palavras do corpo. A seguir, compartilhamos sobre o processo de traçar os territórios afetivos no corpo. Percebemos que memórias inesperadas apareceram, além da variedade dos afetos: alguns estavam ligados aos ossos, outros ao que desejamos cultivar, outros a memórias, outros a sentimentos que se somatizam em alguns lugares, outros a esquemas cistemicos-sociais que cruzam nossas corpas.
Me impressionou a imersão no lugar da intuição, fluidez e arte. Enquanto artista-pesquisadore acho muito difícil propor para outras corpas atividades que envolvam um corpo performático - como no caso dessa atividade - e acho que há aprimoramentos a serem feitos. O resultado imagético foi também surpreendente. Compartilhando sobre a experiência, percebemos que nomear alguns afetos nos ajuda a processar os efeitos deles sobre nossas corpas.
Assim como nos mapas afetivos, é possível visualizar conscientemente o que tem atravessado cada uma das vivências participantes. Entretanto, diferentemente daquele, neste caso observa-se o próprio corpo atravessado por afetos diversos em outrém. O que, em si, é um performático, simbólico e potente. Até porque os afetos que apareceram são presentificados, isso é, especificos daquele tempo-espaço. Se essa mesma dupla estivesse em outro espaço ou dali 1 semana, os resultados muitíssimo provavelmente seriam distintos. Ainda mais se fosse outra dupla. Portanto, é uma contra-cartografia que incorpora não só o passado (lembrança) ou o futuro (profecia), mas também o presente, aquele aqui e agora. Afinal, o resultado inclui tanto os afetos que atravessam aquele corpo individual, quanto os afetos que atravessam a relação entre as corpas da dupla.

Corpo Atravessado, iii-Kali, 2021

Corpo Atravessado, iii-Kali, 2021

Corpo Atravessado, Kali-iii, 2021

Corpo Atravessado, Kali-iii, 2021

Corpo Atravessado, iii-Kali, 2021

Corpo Atravessado, Kali-iii, 2021




